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So man die Früchte sehen will

Matias Viegener, David Burns und Austin Young

“Öffentliches Obst ist für uns der Weg, wie wir die Stadt neu vermessen, um neue Verbindungslinien des Möglichen herzustellen, Linien, die das Raster der Straßen genauso überschreiten wie die Grenzlinien zwischen öffentlich und privat. Unsere Karten sind handgezeichnet, die Fundorte der Obstbäume nur ungefähr. Ziel der Karten ist eine neue Betrachtungsweise beim Spazierengehen in einer vertrauten oder unvertrauten Umgebung. Weiß man, dass es in der Nähe zwei Pfirsich- und einen Pflaumenbaum gibt, ohne den exakten Standort zu wissen, dann schaut man alles genau an – man nimmt wahr und sieht das, was für die Stadt nur zufällig oder zweitrangig ist: Man schaut an, was wächst. So schaffen wir eine Bühne für die Einladung, sich Stadt anders vorzustellen als einen Ort, der mehr is als Wohnen und Handel, ein Ort für Integration, nicht nur für nachhaltige Landwirtschaft, sondern für das Wunderbare. Wie viele utopische Fantasien spielt dies mit der Wiedererlangung eines goldenen Zeitalters, jedoch als offensichtliche Appropriation. Öffentliches Obst ist weniger Objekt als symbolisches Mittels, eine alte Besitzform, die Commons, zu nützen. Symbolisch werden neue Möglichkeiten für neue Besitzformen, die über öffentlich und privat hinausgehen, eröffnet und für neue Formen des Urbanismus”.

fallen fruit fallen fruit fallen fruit

:: via Hands-on Urbanism 1850-20120 / Von Recht auf Grün .

Herausgegeben von Elke Krasny

Architekturzentrum Wien

:: photos taken at Hungry City exhibition last year in Berlin.

Foto: Tiago Vilela

Foto: Tiago Vilela

Uma horta com mais de 100 tipos de plantas, que são vendidas a um valor inferior ao de mercado, funciona desde 2005 na Associação de Moradores da Vila Cafezal, no Aglomerado da Serra, na região Centro-Sul de BH. Neste espaço, de cerca de 700 metros quadrados, os alimentos são cultivados de acordo com os princípios da agroecologia: justiça social, ambiental e econômica.

Dorvalino Marciano, morador da região, é o principal cuidador da horta, que é mantida em parceria com o Grupo Aroeira, composto por estudantes e profissionais formados pela UFMG. Segundo ele, o espaço deveria ser uma horta comunitária, mas como nem todos ajudam no cultivo, é cobrado um pequeno valor para manutenção. Com R$ 2,00 é possível fazer uma compra maior na horta que o equivalente a R$ 6,00 no sacolão, garantem moradores.

Foto 1 - Dorvalino Marciano mostra folha de taioba - Crédito Tiago Vilela

Dorvalino Marciano mostra uma folha de taioba
Foto: Tiago Vilela

O biólogo Emmanuel Almada, membro do Grupo Aroeira, explica o que é agroecologia, de maneira geral. “É essa perspectiva de produção de alimentos levando em consideração os ritmos da natureza, os processos ecológicos, a justiça social. Do ponto de vista técnico, você pode ter um produto orgânico sendo produzido com trabalho escravo. Porque o termo orgânico se refere à forma de produção, sem uso de agrotóxicos e insumos agrícolas, o que já é importante. Mas tão importante quanto as técnicas de produção são os sistemas sociais de produção: se há justiça, se há relações de gêneros iguais, valorização da diversidade. Tudo isso tem que ser levado em consideração.”

Almada conta que o espaço da horta era inicialmente ocupado por entulho e que o movimento social Brigadas Populares a idealizou, em 2005. “Hoje temos mais de 100 espécies de plantas aqui. Além das hortaliças comuns, como a couve, temos muitas outras tradicionais da roça que não são encontradas geralmente nos supermercados, nem em sacolões: cará-do-ar, tomate de árvore, mangarito, milho crioulo roxo de pipoca, vinagreira, bertalha e outras.” A horta também possui vários temperos e plantas medicinais, além de algumas frutas, como limão, banana e laranja, à disposição da comunidade.

Para o estudante de Geografia da UFMG, Pedro Coffran, também do Grupo Aroeira, a horta da Vila Cafezal mostra que existe um outro modo possível de se viver na metrópole com mais cuidado com a saúde e com a soberania alimentar. “Com exemplos como o desta horta, de aproximadamente 700 metros quadrados, produtiva, sem agrotóxicos, com sementes crioulas (originais), com adubo que nós fazemos, a gente mostra que existe um modelo diferente de produção.” Para ele, através da agroecologia urbana é possível expor muitas contradições do nosso mundo. “Não temos controle sobre o nosso próprio alimento, pagamos caro, não sabemos de onde veio e nem como foi produzido.” Coffran espera que a agroecologia se torne uma prática disseminada, pois produz alimentos mais saudáveis e com menos agressividade para o meio ambiente.

Como praticar a agricultura urbana?

Para Emmanuel Almada, plantar na cidade depende do ritmo de vida de cada um. “Mas é um desafio a gente repensar esse ritmo. As pessoas podem participar de práticas coletivas no seu bairro, que são as hortas comunitárias, por exemplo. A agricultura urbana é uma prática subversiva, pois resgata pelo menos parte da autonomia que a gente perdeu com o sistema hegemônico de produção de alimentos, de medicamentos, etc. Essa prática aponta uma outra direção. Permite valorizar as plantas medicinais e o saber popular. Tem uma implicação política, de pensar a cidade, muito grande.”

Oficinas populares

Além de diversos cursos oferecidos para a comunidade, na Associação de Moradores da Vila Cafezal também acontecem oficinas de técnicas e práticas relacionadas à agricultura urbana, a cada 15 dias, que são abertas ao público e gratuitas. Essas oficinas têm reunido mais de 30 pessoas por turma. No sábado (06), os participantes aprenderam a fazer suco de talos (receita abaixo), além de torta de sardinha com ora-pro-nóbis e folhas de peixinho empanadas. Os interessados em participar das próximas oficinas podem obter mais informações pelo e-mail:aroeiraufmg@gmail.com.

Receita de suco de talos – Fonte: Emater-MG

Ingredientes

- 2 xícaras de chá de talos de hortaliças verdes picadas (agrião, beldroega ou couve, ou outras hortaliças verdes)

- ½ xícara de chá de suco de limão

- 1 xícara de chá de açúcar

- 8 xícaras de chá de água

Modo de preparo

- Lave os talos e corte em cubinhos. Bata os talos com um pouco de água no liquidificador, até triturar bem.

- Coe o líquido batido e passe em uma peneira bem fina.

- Dilua o suco com o restante da água gelada e bata novamente com o açúcar e o caldo de limão.

- Sirva logo após o preparo.

Associação de Moradores da Vila Cafezal:

Rua Bela Vista, 56 A, Vila Cafezal, Aglomerado da Serra, Belo Horizonte

Grupo Aroeira: aroeiraufmg@gmail.com

Facebook: Grupo Aroeira UFMG

** Pedro Paturle (paturlep@gmail.com) é jornalista. Escreve no Bhaz aos sábados sobre sustentabilidade no dia a dia.

 

:: via Bhaz

IZABEL DIAS DE OLIVEIRA MELO

Lembro-me da primeira vez que entrei na favela, menina criada no bairro Serra, pertinho da favela, mas tão distante dela. Senti cheiro de feijão cozinhando logo cedo. Inusitadamente para mim aquilo soava estranho, como uma vida normal, como a minha, que acontecia num lugar, naquele momento, ainda irreconhecível. Aquela vida que permeava um lugar estranho, diferente da cidade em que eu circulava, intrigava pela diversidade do cotidiano que abraçava.

Em um final de tarde de um sábado de fevereiro de 2009, fomos, eu e Reinaldo, morador do Aglomerado, à casa da Dona Maria, que mora no mesmo lugar desde quando tinha 16 anos (hoje ela tem aproximadamente 85). Nunca se casou, não teve filhos e “herdou” a casa dos pais. Todos foram saindo e ela ficou. A casa é pequena, uma sala, com vasos de plantas e uma janela pequenina, branca, que abre para o quintal da frente, por onde se entra pela rua. Na lateral tem um jardim bem cuidado, verde e com flores. O café que ela serve é bem docinho; café que ela faz questão de ter para as visitas. D. Maria contou que quando era pequena, “descia aquele rio de canoa, chegando perto de onde agora é aquele hospital”, o LifeCenter. O rio hoje é uma rua. Ali não morava ninguém. “Agora a cidade está chegando”. Dona Maria vai sair; para uma rua passar.

Se na discussão com os moradores das propostas de intervenção do Programa Vila Viva da Prefeitura de Belo Horizonte houve a construção de um consenso quanto à questão “queremos casa”, existe ainda uma incompreensão sobre o que significa essa “casa”.  Esta é a situação de desentendimento onde um dos interlocutores – o Estado – ao mesmo tempo entende e não entende o que diz o outro – o morador da favela. Se para a Prefeitura garantir a habitação está relacionado à construção de apartamentos seguindo o padrão mínimo adotado em outras áreas da cidade, em região dotada de infraestrutura e próxima da moradia de origem dos moradores, para as pessoas relocadas isso pode ser ainda inadequado.

Um menino na rua, morador da favela e que voltava do apartamento do primo que tinha sido relocado pelo Programa, percebe poeticamente como a intervenção interfere em seu cotidiano ao comparar as habitações na favela e os “predinhos da Prefeitura”: “Porque aqui nos apartamentos é tudo coladinho por baixo e por cima. Um em cima do outro. Lá na favela é igual, mas é de ladinho, um colado no outro só que do lado. Acho que fica melhor, cada um tem o seu céu em cima.”

Aparente sutil diferença que tem relação direta com as possibilidades de uso destes espaços. Nas casas na favela, coladas “de ladinho”, “cada um tem seu céu em cima”! Destoando desta percepção, na definição dos apartamentos para onde serão relocadas as famílias é como se houvesse um consenso quanto a uma forma única de habitar a cidade. É como se a experiência na favela não interferisse nos hábitos e necessidades destas famílias. “Aqui não pode dar festa, fazer barulho, som ligado até de noite. No morro pode fazer o que quiser. Ninguém reclama, todo mundo faz. E são os mesmos vizinhos que estão aqui e lá! Acho que é porque aqui é apartamento, e tem lei. Lá não, a gente combina com o vizinho o que quer. Lá os vizinhos ficam acordados até tarde da noite.” (Gleice, moradora de um apartamento).

Não é uma questão semântica: casa é casa. É uma questão conceitual e formal: como é esta casa que se deseja?  Como o exemplo de Ranciére sobre o conflito entre aquele que diz branco e aquele que diz branco, sem entenderem a mesma coisa pelo conceito de brancura. Trata-se de uma situação de desentendimento em relação ao que significa esta “casa” que se deseja. “Agora eu faço churrasco na grama do prédio. Uso o corredor e a área do prédio. Aos poucos estamos trazendo a favela para cá.” (Cineide, relocada para apartamento). O desentendimento, neste sentido, diz respeito a diferentes formas de habitar a cidade.

A transposição de um padrão, de uma maneira de morar da “cidade”, para a favela, desconsidera a voz que se expressa na multiplicidade de formas construídas por seus moradores, pondo em jogo a validade dos enunciados que se apresentam na concretização da forma de ocupação e apropriação dos espaços da favela. “Eu tinha quintal com cachorro, galinha. Tinha minhas plantas medicinais. O melhor xampu da casa era para as cachorras. Tinha a casinha delas. Agora só tô com passarinho.” (D. Zelita, relocada para um apartamento). Esta forma singular de cidade parece ainda não ser admitida no sistema normativo que supostamente representa os anseios da sociedade.

Diferente disso, nos caminhos de Rancière, pensar a especificidade da política implica em retorcer a lógica da racionalidade relacionada às estruturas sistêmicas, consolidadas em regras e leis, para reconhecer uma experiência intersubjetiva relacionada ao desentendimento, uma racionalidade do conflito que separa modos diversos de “estar-junto no mundo”.

A política, além dos espaços instituídos nas estruturas de governo, se configura no campo da experiência, como a introdução de um visível que não era antes considerado, modificando ou reconfigurando a própria realidade ou o que é percebido como realidade, como é o caso da diferença e da presença do espaço da favela. “Onde estende roupa? Dia que fritar frango não pode lavar roupa não. (…) Nós estamos fazendo uma coisa que eles falaram que não podia fazer. Um varal lá fora. Está tudo colorido lá trás.” (Gleice, moradora de um apartamento).  Na própria experiência, relacionada às vivências práticas cotidianas das favelas, desabrocham mundos singulares irreconhecíveis na estrutura sistêmica e nos padrões de urbanização.

O espaço do cotidiano, diferente do espaço das regras e da disciplina, é o espaço da espontaneidade, da abertura, de ações fragmentárias e incontroláveis. É o lugar que se refaz a cada instante, que, subversivo, não se institucionaliza.  É o espaço da revolução, diária e silenciosa, processual.

Para que haja compreensão entre experiências distintas, é necessário que haja o reconhecimento da configuração estética cotidiana a partir da qual se inscreve a voz do habitante da favela. A inversão da perspectiva da exclusão, do estereótipo de espaço de ausência – “sem ordem”, “sem lei”, “sem moral” – é o reconhecimento da favela como um ato de manifestação política, como a enunciação de um sujeito que não estava previsto.

Por esta perspectiva, o direito à cidade, que em tese permeia a proposta do Programa Vila Viva, não seria uma inserção cidadã nos direitos e deveres constituídos pelas regras. Mais do que isto seria o direito a uma prática diferencial da cidade, o direito de revisitar as regras pela prática e vivência cotidiana. Segundo Lefebvre, “o direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito de propriedade) estão implicados no direito à cidade.”

Se estamos falando do reconhecimento do direito à cidade para estas pessoas, não há como pensar em uma habitação sem possibilidades de ampliação e que desconsidera as condições socioculturais e o uso das moradias e espaços públicos nas favelas. O “direito à obra” como direito à prática e construção da cidade por seu habitante não pode se limitar à reprodução pelo Estado do modelo mínimo, inadequado, definido pelo mercado. Deve, diferente disso, abarcar o direito a uma cidade que não seja higienizada, amorfa, a qual só fazem parte as regras, a planificação. Ou, mais do que isso, conceber a cidade por sua diferença e diversidade, para garanti-la e incorporá-la. Lembrando, nas palavras de Michel de Certeau, que “é sempre bom recordar que não se deve tomar os outros por idiotas”.

 

:: Via PISEAGRAMA

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